Movidos pelo Amor que se entrega na Cruz!

Do Livro das Meditações 2

Portanto farei uma escada no coração.
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo.
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavras
Em silêncio, portanto, pisando o coração.

Daniel Faria

Fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu

“Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51).

Nestas palavras, Jesus apresenta-Se a Natanael e aos primeiros discípulos como o Mediador entre o Céu e a Terra, ficando o Céu aberto à humanidade, numa alusão à antiga escada pela qual os Anjos subiam e desciam, na maravilhosa visão de Jacob. Este patriarca, como nos relata o primeiro livro da Bíblia, “teve um sonho: viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu; e, ao longo desta escada, subiam e desciam mensageiros de Deus. Por cima dela estava o Senhor” (Gn 28,12-13).

No livro do Génesis, os Anjos de Deus, que sobem a Deus e descem junto dos homens, antecedem a renovação da aliança de Deus com Jacob.

Agora, como sugere Jesus, no final do encontro com Natanael e os primeiros discípulos (cf. Jo 1,35-51), a nova aliança é feita com o Filho do homem, o Deus encarnado. E por isso, ao longo da história, foram muitos os autores espirituais e artistas que viram nesta imagem da escada uma figura antecipada da Cruz, também na linha da revelação de Jesus a Nicodemos: “Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem” (Jo 3,14).

Recorda-no-lo, por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica: “A cruz é o único sacrifício de Cristo, mediador único entre Deus e os homens. Mas porque, na sua pessoa divina encarnada, Ele Se uniu, de certo modo, a cada homem, a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal, por um modo só de Deus conhecido”. E acrescenta, em jeito de elucidação, a bela imagem de Santa Rosa de Lima: «Há uma só escada verdadeira fora do paraíso; fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu»” (CIC, n.º 618).

Pareceu-nos então adequado, neste ciclo B, adotar a escada como imagem da nossa caminhada, uma vez que a Quaresma do ciclo B desenvolve, a partir de várias imagens, o paradoxo da descida e da subida de Jesus na Cruz e o sentido mais profundo do mistério pascal, que brota do amor indizível deste “Deus, que amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito” (Jo 3,16).

As escadas, colocadas junto à Cruz podem ajudar-nos a representar e a viver mais intensamente o mistério pascal de Jesus, tomando assim esta escada do amor, que Se entrega na Cruz, como imagem da nossa caminhada. Na verdade, a Cruz é, ao mesmo tempo, a escada por onde Jesus desce e é humilhado e por onde sobe para ser exaltado. Nela, o cristão aprende de Cristo, que se sobe descendo e que se desce subindo.

 O acento simbólico e pascal da quaresma e o tema do amor no lecionário dominical do ano B

Uma leitura atenta do lecionário dominical do Ano B, para o tempo da Quaresma, faz-nos perceber que o acento tónico não é posto tanto no caminho de preparação final para o Batismo, como acontece no ciclo A, nem tampouco na penitência, como caminho de purificação e renovação batismal, tal como se desenvolve sobretudo no ciclo C.

A Quaresma, do ciclo B, para além do que é comum a este tempo nos outros ciclos litúrgicos, põe o seu acento tónico, e de modo muito simbólico, na compreensão e vivência do mistério pascal, que é aliás a finalidade primeira deste tempo, como se reza na oração coleta do 1.º domingo: “que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho”.

Nos domingos centrais da Quaresma (3.º, 4.º e 5.º), iluminados por textos do Evangelho segundo São João, a Igreja propõe-nos o caminho de Jesus para a Sua exaltação gloriosa e oferece-nos três catequeses sobre o mistério pascal. E fá-lo de modo simbólico, com as imagens sugestivas da elevação de Cristo na Cruz, prefigurada na serpente elevada no poste como sinal de salvação (3.º domingo), do templo destruído e reconstruído em três dias (4.º domingo) e do grão de trigo caído à terra que, graças à morte, frutifica (5.º domingo).

Assim, nos três símbolos (templo, serpente e grão de trigo) Cristo oferece-nos o dinamismo da Sua morte/ressurreição, da fecundidade, que passa pela autonegação, pela Sua exaltação na Cruz. O caminho da Quaresma deixa então de ser um sombrio tempo de penitência, para se tornar um caminho de purificação e iluminação, no qual Cristo vai abrindo com a Sua própria experiência sendeiros de luz, para toda a Igreja.

Deste modo, fica claro que as leituras bíblicas do tempo da Quaresma (a começar pelos Evangelhos) encontram o seu sentido mais profundo na relação com o mistério pascal, para onde se orientam.

O sentido da Quaresma cristã pode resumir-se assim: ela introduz-nos na celebração do mistério pascal de Cristo, nesse grande acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, como única e maior intervenção salvadora do poder de Deus, na história da humanidade.

Para Cristo, o mistério pascal é o seu “passo” triunfal da morte à vida, o mistério total da Sua Paixão, morte e ressurreição e ascensão aos Céus. É o “passo”, que a própria palavra “Páscoa” significa. Para nós, a celebração do mistério pascal é a participação nesse mesmo mistério da morte, ressurreição e ascensão de Cristo.

Na Quaresma, o mistério pascal que especificamente celebramos é precisamente o do caminho de Jesus para a Sua Páscoa, que se converte, na celebração e na vida da Igreja, em itinerário de conversão e iluminação do cristão.

Põe uma escada e sobe ao cimo do que vês: o amor de Deus

São João oferece-nos a visão da Cruz de Jesus, como árvore da vida nova, que Ele nos veio oferecer. Assim se exprime o próprio Jesus: “Quando elevardes o Filho do Homem, então sabereis quem Eu sou. E ainda: “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 8,28; 12,32-33).

É evidente que o evangelista vê a Cruz como árvore da vida, da glorificação de Cristo e de cura dos que O aceitam como seu Salvador. Mas, no deserto, para ser curado do veneno das serpentes, era necessário “olhar” para esse símbolo da vida. Agora, para “ter a vida eterna”, é necessário “acreditar” em Jesus, que está levantado e é elevado na Cruz, isto é, subiu à condição divina, pela escada da árvore da Cruz (cf. Jo 8,28; 12,32-34).

Por outras palavras: a Cruz é uma outra maneira de representar o simbolismo da árvore e, deste modo, ela torna-se uma escada de subida da Terra ao Céu.

O tempo pascal, no Ano B, oferece-nos também a preciosa possibilidade de aprofundar o nosso lema pastoral “Movidos pelo amor de Deus”, sobretudo a partir 2.ª leitura, da 1.ª Carta de São João, que desenvolve com particular profundidade a revelação de Deus como Amor e, em resposta permanente a este amor, a prática do mandamento novo.

O segredo desta “descida” ao abismo da Cruz e da morte, pela qual o Filho de Deus é exaltado na glória, é o amor de Deus: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito”, assim escutaremos no Evangelho do 3.º domingo (cf. Jo 3,14-21). Disse com notável beleza e profundidade Bento XVI: “Na sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra Si próprio, com o qual Ele Se entrega para levantar o homem e salvá-lo — o amor na sua forma mais radical. O olhar fixo no lado trespassado de Cristo, de que fala João (cf. 19, 37), compreende o que serviu de ponto de partida a esta Carta Encíclica: «Deus é amor» (1 Jo 4, 8). É lá que esta verdade pode ser contemplada. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e amar” (Bento XVI, Deus Caritas est, n.º 12).

A escada como símbolo da cruz, caminho do amor

A Bíblia fornece-nos já prefigurações da Cruz de Jesus, no símbolo da coluna de fogo e da nuvem e sobretudo na escada de Jacob, por onde desciam e subiam os anjos do céu (Gn 28,12). Essa é a perspetiva de São João, como já referimos. Jesus, suspenso da Cruz, entre o Céu e a Terra, ao tornar-Se o mediador entre Deus e a humanidade pecadora, faz da Cruz a Sua escada de subida e descida até junto de nós. Mediante a Cruz de Cristo, Deus comunica-Se com a humanidade, ou melhor, comunica à humanidade toda a riqueza do Seu amor infinito.

Os grandes autores espirituais e místicos (tais como São Bento, São Bernardo, São Bruno, São João da Cruz, Santa Teresa do Menino Jesus) serviram-se da imagem da “escada” como símbolo da Cruz de Cristo e do caminho do amor, em que são necessárias purificações e amadurecimentos, ou do caminho da vida espiritual, nas suas diversas etapas, expressões ou degraus.

Põe uma escada no deserto, para fixar a luz

É interessante, de facto, que a Cruz, o caminho do amor e a exigência da vida cristã seja comparável a um subir ou descer os degraus de uma escada. A subida é cansativa; pode-se tropeçar porque os primeiros degraus estão na escuridão, mas lá em cima há uma luz infinita. Com o archote da esperança e com o desejo da procura pode-se prosseguir de etapa em etapa, de luz em luz.

Tudo, enfim, se pode resumir em dois belos textos de Daniel Faria. Parafraseando uma passagem do livro de Coeleth (Ecl 12, 1-7) o poeta de Baltar, Paredes, deixa-nos o desafio: “Põe uma escada e sobe ao cimo do que vês”. E ele mesmo assume a aventura, quando escreve: “Portanto, farei uma escada no coração / e pelos degraus subirei da minha casa / Até bater com o pensamento no altíssimo (…) / Farei portanto a escada no deserto / para fixar a luz”.