‘Vamos falar de Eutanásia’

“O debate sobre a eutanásia (antecipação intencional da morte natural num doente com sofrimento intolerável) e suicídio medicamente assistido (eutanásia solicitada e realizada pelo próprio com apoio médico), – escreveu o médico Miguel Oliveira da Silva – é tão velho quanto o juramento de Hipócrates: vinte e cinco séculos. Fez, faz e fará parte da nossa cultura.”

Sabemos que é um assunto muito complexo, transversal à ética, à medicina, ao direito, à filosofia, à ciência, à religião, e onde se ‘misturam’ também as experiências pessoais e familiares. Por isso, é fundamental evitar cair no simplismo, na demagogia, na superficialidade, na tentação de uma generalização abusiva. Caminhamos no fio frágil da vida – vida concreta e não abstracta –, o melhor e mais sensato é avançar devagar, para o caminho ser mais seguro e bem sustentado.

Antes de mais, é preciso esclarecer conceitos, não cabe tudo no mesmo saco, não é tudo a mesma coisa. De um lado e do outro, se assim podemos falar. De que falamos, quando falamos de eutanásia activa e passiva, de ortotanásia, distanásia (obstinação terapêutica)? E sabemos mesmo o que diz a Igreja sobre isto?

Uma coisa é ‘dar a morte’, outra, bem diferente, é aceitar o facto de não a podermos impedir. A diferença entre deixar morrer e matar. ‘De a morte fazer parte da vida’, como diz a canção.

“Como devemos, desde o ponto de vista da moral cristã, olhar este assunto”, pergunta o teólogo. Como podemos nós entrar no debate e dialogar sobre esta questão tão exigente e difícil e ambígua?

Volto ao médico Miguel Oliveira da Silva: “Eutanásia, suicídio ajudado, barrigas de aluguer são questões que a todos afectam, que não nos podem deixar indiferentes. As respostas que lhes damos – e as que lhes saibamos dar – afectam a nossa vida, a nossa dignidade, os valores que praticamos e legamos aos nossos filhos”.

E volto ao teólogo moral, Jorge Cunha: “Qualquer que venha a ser o desfecho do que agora começou, a reflexão da teologia moral não pode ficar parada. Tem sempre de se interrogar sobre  se o que está a acontecer na nossa cultura é um crescimento da liberdade ou um recuo. Somos mais humanos quando queremos ter poder sobre o termo do nosso viver ou menos humanos?”

Poderá a morte tornar-se um direito? Não estará antes o direito à vida?

O jornalista Henrique Monteiro, termina assim uma brevíssima crónica intitulada ‘À morte ninguém escapa’: “Cada profissão, incluindo a médica, tem os seus deveres. E, não sabendo eu o que é a vida (e concomitantemente o que é a morte), paraliso na exigência de legislação. Não é uma opção religiosa ou moral. É apenas um desejo de que cada um cumpra a sua missão com regras que juntam a ética própria de cada profissional à compaixão e à misericórdia.

São valores tão humanos que a frieza das leis do Estado não os comporta.”

Vamos então falar de eutanásia e perceber qual o nosso contributo neste diálogo tão dolorosamente humano e, por isso, tão necessariamente cristão.