PensActos – Dialugares na Cidade

cartaz_março-2017-01A humanidade precisa da Beleza. Ela é a nascente da esperança que salva. Ela é origem e, por isso, palavra inicial. Mas é, também destino e, então, palavra última. Ela é princípio e fim. Ela é de Deus, e, por isso, do homem.

Mas o mundo não gosta da Beleza. Gosta apenas de si. A sua autonomia não aceita alteridades. A sua lei recusa intromissões. O caminho autónomo e hermético do mundo guia-se pelas crenças na razão forte, na ciência plenipotenciária, nas ideologias que tudo abarcam. Nesta ambição, não resta espaço para a Beleza. Ela não cabe na realidade racionalizável. Nesta, não há lugar para o indizível, para o inefável, para o mistério.

A soberba do mundo impediu-o de descobrir que a Beleza evoca, não captura; que suscita, não prende; que invoca, não presume. A soberba cavou o caminho finito do mundo, gerou a sua entropia, tornou-se o seu pecado mortal. A consequência dramática do exílio da Beleza está na perda de sentido do homem, ao ter levado consigo a Verdade e o Bem.

Agora, no tempo do desencanto da razão totalitária, do anonimato das multidões indiferentes, do vazio das mil verdades, da suspeita de quaisquer perspectivas de sentido, o homem pergunta pela Beleza. Inscrita no mais íntimo de si, ele procura-a nos estilhaços do mundo fragmentado e relativo, porque sabe que só ela o permitirá redescobrir-se como homem e alcançar, nessa renovada descoberta, o sentido que salva.

Balthasar afirmaria, um dia, que “o homem não pode viver num mundo sem Beleza, pois esta é, em última instância, um reflexo e um fragmento da Glória (Beleza) de Deus”. É, pois, urgente reencontrar a Beleza: a que salva, a que a revelação cristã oferece no Rosto do Redentor, a do Amor eterno do Crucificado. Só essa voltará a ser capaz de atrair a si a humanidade e de devolver o homem à sua dignidade sublime e originária.

No seu romance O Idiota, Dostoyevsky coloca nos lábios do ateu Hipólito, uma pergunta ao príncipe Miškin: “Que beleza salvará o mundo?”. A resposta dá-la-á, mais tarde, o escritor russo: a Beleza redentora de Cristo. A mesma que salvará o homem.

Não será este o nosso tempo Pascal, o tempo da redescoberta da Beleza?